As alegações sobre péptidos assentam em tipos de estudo muito diferentes, desde grandes ensaios de medicamentos a um punhado de experiências em ratos, e são muitas vezes repetidas como se tivessem o mesmo peso. Não têm. Os investigadores médicos hierarquizam a evidência segundo a capacidade de um estudo para excluir o acaso e o enviesamento, e os ensaios controlados e aleatorizados em pessoas vêm em primeiro lugar. As autoridades reguladoras, como a FDA, só aprovam um medicamento depois de avaliarem resultados de ensaios em pessoas. Este artigo explica essa hierarquia e a forma como o PeptoKing a usa para classificar cada péptido.1,3

Do laboratório à aprovação

Os novos medicamentos seguem um percurso definido. Antes de um fármaco ser testado em pessoas, quem o desenvolve realiza testes laboratoriais e em animais para perceber como funciona e se é provável que seja seguro. Seguem-se os ensaios em pessoas, normalmente em três fases: a fase I, num pequeno número de voluntários saudáveis ou de doentes; a fase II, num número relativamente pequeno de doentes com a doença; e a fase III, num número maior de doentes, para comparar o medicamento com outros tratamentos e perceber até que ponto funciona.1,2

A aprovação da FDA significa que a agência avaliou os dados e decidiu que os benefícios do medicamento superam os seus riscos conhecidos e potenciais para as pessoas a que se destina. A FDA espera, em geral, resultados de dois ensaios clínicos bem concebidos, para que as conclusões do primeiro não resultem do acaso ou de enviesamento, embora, no caso de uma doença rara, um único ensaio convincente possa ser suficiente. Na UE, um comité da Agência Europeia de Medicamentos avalia o pedido e a Comissão Europeia toma uma decisão juridicamente vinculativa, válida em todos os Estados-Membros da UE e na Islândia, no Liechtenstein e na Noruega.1,2

Porque é que os ensaios aleatorizados contam mais

Num ensaio controlado e aleatorizado, é o acaso que decide quem recebe o tratamento e quem recebe um comparador, como um placebo. O Cochrane Handbook for Systematic Reviews of Interventions identifica os dois problemas a que os estudos sem aleatorização estão expostos: o confundimento e o enviesamento de seleção. É por isso que o manual faz a evidência de estudos não aleatorizados partir de um nível de certeza mais baixo.4

A Cochrane usa o sistema GRADE, que organizações de todo o mundo adotaram para classificar a certeza de um conjunto de evidência como alta, moderada, baixa ou muito baixa. A evidência de ensaios aleatorizados parte de alta, e a evidência de estudos observacionais, como os estudos de coorte e de caso-controlo, parte de baixa. Ambas podem mudar. A confiança desce devido a limitações dos estudos, resultados inconsistentes, evidência indireta, imprecisão e enviesamento de publicação, e a evidência observacional pode subir de nível, por exemplo quando o efeito é muito grande.3,4

Porque é que os resultados em animais são um guia fraco

Os estudos em animais e em células são o ponto de partida da investigação de medicamentos, não o ponto de chegada. Uma análise de 2004 publicada no BMJ defendeu que grande parte da investigação em animais sobre potenciais tratamentos para seres humanos é desperdiçada por ser mal conduzida, e deu exemplos de estudos em animais pequenos e mal concebidos, com utilização inconsistente da aleatorização e da ocultação. Mesmo quando os estudos em animais são bem feitos, escreveram os autores, continua a ser discutível até que ponto os resultados se aplicam aos seres humanos.5

O BPC-157 ilustra esta lacuna. Uma revisão sistemática de 2025 sobre o BPC-157 em medicina desportiva incluiu 36 estudos, 35 dos quais pré-clínicos. O único estudo clínico foi um relato retrospetivo em que 7 de 12 doentes com dor no joelho de longa duração afirmaram que a dor melhorou, e os revisores não encontraram dados de segurança clínica em seres humanos.9

Como o PeptoKing classifica a evidência

Cada entrada do PeptoKing tem um único grau de evidência. Este descreve a melhor evidência em seres humanos para a utilização principal para a qual as pessoas tomam o péptido, e não todas as alegações feitas sobre ele. Os graus seguem a mesma ordem do GRADE: primeiro os ensaios aleatorizados em pessoas, depois os estudos em seres humanos mais pequenos ou sem controlo, e depois os trabalhos em animais e em células.3

GrauO que significaExemplo
ForteVários ensaios controlados e aleatorizados de grande dimensão em pessoas.Semaglutido: só no ensaio STEP 1, 1961 adultos sem diabetes foram distribuídos aleatoriamente para semaglutido ou placebo durante 68 semanas.
ModeradaPelo menos um bom ensaio aleatorizado, ou ensaios mais pequenos em seres humanos com resultados consistentes.Retatrutida: um ensaio de fase 2 aleatorizado e controlado por placebo em 338 adultos com obesidade ou excesso de peso observou uma perda de peso substancial ao longo de 48 semanas.
PreliminarPequenos estudos em seres humanos, estudos-piloto ou dados observacionais.Ipamorelina: um ensaio de fase 2 em 117 doentes após cirurgia intestinal, que os seus autores consideraram pequeno, não encontrou diferença significativa face ao placebo.
Apenas dados em animaisQuase tudo o que se sabe provém de estudos em animais ou em células.BPC-157: 35 dos 36 estudos de uma revisão sistemática de 2025 eram pré-clínicos.
6,7,8,9

Situação regulamentar e evidência são coisas distintas

O PeptoKing mostra a situação regulamentar e o grau de evidência lado a lado, porque uma não implica o outro. A elamipretida (Forzinity) recebeu aprovação acelerada nos EUA para a síndrome de Barth com base num ensaio em 12 doentes. Não superou o placebo nos principais parâmetros de avaliação do ensaio, a distância percorrida a pé e a fadiga, e os ganhos de força muscular que sustentaram a aprovação só surgiram num período mais longo em regime aberto. No âmbito da aprovação acelerada, a empresa continua a realizar ensaios para confirmar que o medicamento funciona. O PeptoKing marca-a como aprovada, com um grau de evidência preliminar.10

O inverso também acontece. A retatrutida já tem evidência de ensaios aleatorizados em pessoas, o que lhe vale uma classificação de evidência moderada, mas, até que uma autoridade reguladora a aprove, continua marcada como estando em ensaios clínicos.7

Um grau descreve o que se sabe sobre um medicamento tal como foi testado em ensaios. Nada diz sobre produtos vendidos com o mesmo nome fora do circuito regulado: a FDA salienta que as versões não aprovadas de medicamentos como o semaglutido e a tirzepatida não passam pela sua avaliação de segurança, eficácia e qualidade.11